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Sobre

Daniel Lobo

Daniel Lobo é o fundador do Estudante Engenheiro e editor do blog.

A fiscalização de obras é uma área essencial para garantir a boa execução, conformidade e segurança de qualquer construção. No entanto, é pouco explorada ao longo da formação académica em engenharia civil — muitas vezes limitada a uma cadeira apenas no último ano do curso.


Para muitos estudantes e recém-formados, o primeiro contacto real com a fiscalização acontece já em contexto de obra, sem preparação suficiente.


Neste artigo, partilhamos a experiência do eng.º Txauana Samuangala, um jovem engenheiro civil que, apesar de estar ainda nos primeiros anos da sua carreira, tem acumulado experiências valiosas em projectos de grande dimensão em Angola.


O seu testemunho oferece um olhar honesto, técnico e realista sobre o que é começar nesta área — com erros, desafios e pequenos progressos que vão formando um engenheiro de campo.




Como é começar carreira como fiscal de obras em Angola?

A maior dificuldade, segundo o próprio eng.º Txauana, foi lidar com a falta de experiência práctica: os termos técnicos, a pressão da obra, a responsabilidade de garantir a execução correcta dos trabalhos — uma avalanche de desafios, exigindo rápida adaptação.


“Eu nunca escondo que estou a começar, que sou ainda miúdo nessa área. Porque não são em dois anos que se aprende tudo. Infelizmente o que a gente aprende na faculdade, nos deparando com a realidade da obra, é muito diferente”, comenta o engenheiro.


Txauana formou-se pelo Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO) e iniciou o seu percurso como estagiário na PRUMO – Empreendimentos e Materiais de Construção, onde teve o primeiro contacto com a execução de obras hospitalares.


Mais tarde, integrou a equipa da A400 Angola, onde actua actualmente como fiscal de obras no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPD) no Sumbe.


“Comecei a trabalhar como estagiário numa obra do ramo hospitalar e não foi fácil, porque eu fui alguém que ao longo dos 5 anos da minha formação, não teve contacto com obras”.


“Eu comecei como empreiteiro geral, a [empresa] PRUMO era o empreiteiro geral da obra do hospital Pedro Maria Tonha “Pedalé”. E como empreiteiro geral automaticamente tu tens o papel de fiscal das frentes dos subempreiteiros. Tínhamos equipa própria que fazia certos trabalhos, mas os outros eram subcontratações”, explica Txauana.


O que faz um fiscal de obras, na práctica?

A função de fiscal de obras envolve muito mais do que apenas “estar na obra”. Exige atenção aos detalhes, domínio dos projectos, comunicação com equipas de execução e a capacidade de detectar inconformidades ainda a tempo de evitar erros maiores.


Supervisão e acompanhamento das subempreitadas

“O que a agente fazia [no projecto do Hospital] era acompanhamento e supervisão das subempreitadas. Por exemplo, tínhamos a parte das infraestruturas, nesse caso, rede de combate à incêndio, rega, drenagem, e eu pude acompanhar esses trabalhos. Na parte da arquitectura, se bem que não encontrei o projecto desde o início, mas acompanhei os trabalhos da parte de execução das portas interiores do hospital, a colocação dos sanitários e armários.”


Já no projecto onde trabalha actualmente — o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento no Sumbe — o desafio aumentou. As frentes de trabalho são diversas, desde laboratórios, oficinas à data centers.


“No meu dia-a-dia, faço o acompanhamento da fiscalização das diferentes frentes de trabalho. O Centro de Pesquisa é voltado para o sector petrolífero, e é um complexo com dois laboratórios, dormitórios, oficina, data center, clínica, etc. Temos diferentes frentes de trabalho no complexo, nesse preciso momento temos a oficina, uma central de geração de energia, um data center, que é o projecto mais recente”.


“Tive o privilégio de ser o responsável do acompanhamento da frente de trabalho da oficina. Temos o laboratório de geociências que também estamos a acompanhar e o data center”.


Além da supervisão de várias frentes, o engenheiro frisa que a análise de conformidade dos trabalhos é outra responsabilidade essencial do fiscal que se assenta na sua capacidade de observação aos detalhes e no conhecimento do projecto.


Análise de conformidade dos trabalhos com os projectos

“Como fiscal constantemente tem que ir avaliando se o que está a ser feito está conforme ou não, porque posteriormente se houver incompatibilidade pode-se ter perdas”.


Aprender a fiscalizar: as dificuldades e as viragens

Começar a carreira após a licenciatura sem nenhuma experiência em obras é, segundo Txauana, um exercício de humildade e aprendizagem acelerada. A pressão é constante, especialmente quando se assume responsabilidades, onde as pessoas esperam de ti e contam consigo.


“Tive dificuldades no princípio porque era tudo novo para mim. Os termos que utilizavam na obra, eu não dominava, tive que estar a apontar. Eu vim de uma outra realidade, cursei Topografia no ensino médio. Então, fiquei a conhecer alguns termos só depois dos 5 anos [da formação superior]. Tinha que investigar para entrar no assunto.”


A importância da experiência, mas também da resiliência e do aprendizado contínuo

“A maior dificuldade eu diria que foi mesmo a falta de experiência, que conta muito. Incumbiram-me a responsabilidade de acompanhar a frente da oficina e foi muita pressão em comparação com a minha primeira experiência. A responsabilidade era maior, tive que pegar em um projecto que já estava a decorrer e estudar tudo - o fiscal tem que ter domínio do projecto, das várias especialidades.”


A experiência partilhada pelo eng.º Txauana Samuangala revela, com realismo e humildade, os bastidores de um início de carreira marcado por aprendizagem constante, erros assumidos e uma evolução que se constrói passo a passo, obra após obra.


Apesar das lacunas na formação académica, é possível crescer — com dedicação, curiosidade e vontade de aprender. O percurso de Txauana mostra que o engenheiro não sai pronto da universidade, forma-se no campo.


E talvez esta seja a grande lição: os primeiros anos serão exigentes, sim. Mas é precisamente por isso que escolhemos fazer engenharia: pelos desafios.


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Categoria

Engenharia Civil
18 de junho de 2025

Fiscalização de Obras: o que aprendi nos primeiros dois anos

A fiscalização de obras é uma área essencial para garantir a boa execução, conformidade e segurança de qualquer construção. No entanto, é pouco explorada ao longo da formação académica em engenharia civil.

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