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Sobre

Aquitofel Mananga

Aquitofel Mananga é arquitecto angolano, especialista em Arquitectura Humanitária pela YACademy (Itália) e pioneiro em impressão 3D em Angola. É colaborador da Power2Build, co-fundador do coletivo Pathways e membro do Laboratório Urbano de Angola (LURA).

Participante em fóruns e concursos internacionais, tendo sido reconhecido no EU Mies Award Young Talent. Em 2021, venceu o prémio “A Busca pela Identidade em Angola”, com publicação no ArchDaily.
Em 2024, concluiu a pós-graduação na YACademy (Itália), onde foi mentorado pela arquitecta Anupama Kundoo, o que culminou numa colaboração com o atelier internacional BIG – Bjarke Ingels Group, liderado por Bjarke Ingels.

A construção civil em África atravessa um momento de transformação profunda, impulsionado pela integração entre arquitectura, engenharia e tecnologia. Entre as inovações mais disruptivas destaca-se a impressão 3D aplicada à construção de habitações, uma solução que promete maior eficiência, controlo de custos e rapidez de execução. Em Angola, esta revolução já não é apenas uma projecção futura — é uma realidade em consolidação.


Nesta entrevista, o arquitecto Aquitofel Mananga partilha o seu percurso na construção automatizada, explica de forma técnica como funciona o processo de impressão 3D de casas e analisa os desafios, limitações e oportunidades desta tecnologia no contexto angolano.


Créditos da imagem: Aquitofel Mananga.
Créditos da imagem: Aquitofel Mananga.

Como surgiu o seu envolvimento com a construção de casas através de impressão 3D?

O meu envolvimento surgiu num momento estratégico da minha carreira, quando eu já buscava integrar tecnologia e construção como extensão da arquitectura contemporânea contrapartida embora já inserido no mercado de trabalho em escritórios de arquitectura procurava ainda mais dinamizar a minha carreira com outros aprendizados e desafios.


Nesse percurso, foi através do arquitecto Ilídio Daio antigo meu professor da faculdade e mentor de projecto final do curso na época que passei a integrar a Power2Build, oportunidade que consolidou a minha actuação na construção automatizada em Angola a partir desse momento, passei a actuar directamente na intersecção entre arquitectura, tecnologia e engenharia. 


De forma minuciosa, como funciona o processo de impressão 3D aplicado à construção de habitações?

Primeiramente a arquitectura e a engenheira concebem e a tecnologia executa. A impressão 3D na construção de habitações como qualquer outro projecto começa com a concepção arquitectónica e de engenharia, onde definimos espaços, estrutura e sistemas. O projecto é depois modelado em BIM para compatibilização e precisão.


A impressora 3D executa o betão camada por camada, enquanto uma equipa multidisciplinar acompanha todo o processo, garantindo qualidade e integração de todos os sistemas. Assim, a tecnologia potencializa a precisão e eficiência, mas não substitui o arquitecto nem o engenheiro, apenas amplia sua capacidade criativa e de execução.


Quanto tempo leva, em média, a imprimir uma casa?

Pela minha experiência, em média actualmente 3/4 dias, mas certamente teríamos que avaliar a complexidade de cada projecto e o tamanho, que também é factor a se levar em conta e refinar o processo a fim que atenda esta média sempre. Entretanto, a nível de escala urbana é um grande passo e ajudaria na eficiência de execução de estratégias sócio-políticas a fim de resolver vários problemas.


A impressão 3D permite reduzir custos de construção?

Sim, não só permite, mas ajuda bastante a ter o controlo dos custos, mais eficiência e redução de materiais, planeamento e orçamento antecipado principalmente em larga escala ou em obras muito complexas e garantindo domínio da mesma.


Quais foram os maiores desafios técnicos encontrados ao implementar esta tecnologia em Angola/África?

Os maiores desafios consistem em submeter a tecnologia face a técnicas locais existentes. Em contrapartida isto é bom, porque cria-se aqui uma janela de investigação científica, de aprimoramento e de novas técnicas.


Temos que entender tecnologia 3D visa amplificar e não reter. "A tecnologia 3D não substitui, é mediador e amplificador do saber local".


Créditos da imagem: Aquitofel Mananga.
Créditos da imagem: Aquitofel Mananga.

Existem limitações de altura, dimensão ou tipo de projecto para casas impressas em 3D?

Sim existem limitações isto é para tecnologia 3D, tanto na altura, largura e comprimento, mas não limitações conceituais do ponto de vista arquitectónico.


A Cobod a instituição criadora das impressoras modulares, tem em sua posse várias impressoras com dimensões específicas e estas podem ser reajustadas de acordo a necessidade. Refiro-me a BOD2 , BOD3, BODXL que com estas impressoras modulares podem ser ajustadas conforme a escala.


Esta tecnologia pode ajudar a reduzir o défice habitacional em países africanos? 

Sim. A tecnologia ajuda, é uma ferramenta que traz grandes vantagens principalmente em larga escala e pela sua eficiência. Mas, contudo, a tecnologia sozinha não resolve o défice habitacional. O que resolve é estratégia, o planeamento urbano e arquitetónico aliada à tecnologia que são de inteira responsabilidade dos arquitectos e urbanistas.


Quais são os principais obstáculos para a adopção em larga escala da construção 3D em Angola?

Existem vários, o mais central é a resistência cultural a inovação por se tratar de algo novo, e a necessidade de actualização de normas e capacitação técnica para seja realmente compreendida a tecnologia. No entanto, já existem evidências práticas executadas no país.


No âmbito da Power2Build, foram desenvolvidos projectos pioneiros como a primeira habitação impressa em 3D em Angola e do mundo feito de betão, as duplex de dois pisos e actualmente a construção do primeiro equipamento comercial público impresso em 3D, têm vindo a quebrar paradigmas e consolidar a confiança no sistema construtivo em Angola.


Para mim, enquanto arquitecto pioneiro e autor de um desses marcos especialmente o equipamento, é motivo de grande responsabilidade profissional contribuir para a modernização do sector da construção no país.


A mão-de-obra local perde espaço com esta tecnologia ou surgem novas oportunidades de trabalho?

A mão de obra não perde espaço, pelo contrário, torna-se aliada e surgem novas oportunidades de trabalho e inclusive novos cargos. Assim sendo passa existir uma janela de aprendizagem, conhecimento e capacitação profissional alargada e mais profissionais qualificados e especialistas na construção.


Como imagina o mercado da construção em Angola daqui a 10 anos com a evolução da impressão 3D? 

Como arquitecto digo sempre que falar de impressão 3D na África, especialmente em Angola, é falar de um futuro que certamente está escrito no mundo atemporal que chamamos de hoje, sem ignorar os fatos identitários que compõem uma sociedade. E a tecnologia nos ajuda a expressar a criatividade combinada com o contexto construtivo tradicional e a inovação.


E certamente que daqui a 10 anos consigo sim visualizar o sucesso de industrialização de construções e mais formações especializadas e consolidação da construção automatizada e qualidade construtiva.



A impressão 3D na construção não surge como substituta do saber técnico tradicional, mas como amplificadora das capacidades humanas e profissionais. Como destaca Aquitofel Mananga, a tecnologia é ferramenta — o verdadeiro motor da transformação continua a ser o planeamento estratégico, o pensamento arquitectónico e a visão urbana integrada.


Agradecemos ao arquitecto Aquitofel Mananga pela entrevista.

Categoria

Tecnologia
25 de fevereiro de 2026

Impressão 3D de casas: A nova revolução da construção em Angola

A construção civil em África atravessa um momento de transformação profunda, impulsionado pela integração entre arquitectura, engenharia e tecnologia.

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